Eu Costumava Trabalhar em uma Linha de Prevenção de Suicídio


Eu era nova na operação quando uma garota chamada Kelly ligou. Seu caso era bastante diferente dos outros que eu estava acostumado a lidar (como trotes, chamadas reais de suicídio, chamadas bizarras, etc.) Ela tinha ligado pedindo conselhos sobre sua melhor amiga suicida.

Kelly: "O-Oi, meu nome é Kelly. Você poderia me ajudar?"

Eu: "Claro, estamos aqui para ajudar."

Kelly: "Eu acho que minha amiga quer se matar..."

Eu: "O que te faz pensar isso?"

Kelly: "Ela... ela me disse uma vez que não estava feliz em casa. De vez em quando ela também sofre bullying na escola. Mas às vezes... às vezes ela fala sobre suicídio. Eu apenas quero ajudá-la! Mas não sei o que fazer... Eu não quero que ela se mate, ela é minha melhor amiga."

Kelly falava apressadamente, sua voz mostrava claramente seu nervosismo.

EU: "Ok, Kelly, eu posso de chamar de Kelly, certo?"

Kelly: "Ah, claro."

Eu: "Ok, Kelly, não vamos tirar conclusões precipitadas por agora. Sua amiga tem agido estranhamente?"

Kelly: "Hum, mais ou menos, eu acho. Ela está me evitando. Evitando a todos, na verdade. Ela não responde ligações e mensagens de mim nem de ninguém, é como se ela não existisse fora da escola. Ela saiu do clube de arte, sendo que ela ama... ou amava, estou preocupada porque ela nunca fez nada assim antes."

Eu: "Você já tentou falar com ela sobre isso?"

Kelly: "Não... Eu fiquei com medo que ela se distanciasse mais, ou me odiasse."

Eu: "E por que ela te odiaria por se preocupar com ela?"

Kelly: "É, você está certa. Mas como eu abordaria o assunto?"

Eu: "Lembre-se, hipoteticamente sua amiga também pode estar com medo de ser odiada e evitada por você

Kelly: "Então ela não se magoaria?"

Eu: "Sim, você poderia conversar com ela sobre isso. Mas isso é apenas hipoteticamente."

Kelly: "Ok, entendi. Acho que sei como falar com ela. Muito obrigada por ouvir. Eu acho que eu apenas precisava de alguém para ouvir minhas preocupações."

Eu: "Sem problemas, boa sorte com sua amiga."

Kelly: "Espera, posso saber seu nome para que eu talvez possa falar com você de novo?"

Eu: "Ah, nós geralmente não temos permissão de falar, mas chame pelo nome Robbie da próxima vez que ligar e eu tentarei estar com você novamente."

Kelly: "Ok, obrigado, senhora! Tenha um ótimo dia."
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Essa foi a primeira ligação de Kelly. Eu estava bastante orgulhosa de mim mesma por ser útil para alguém, mas minha conversa com Kelly logo foi esquecida enquanto eu seguia atendendo chamadas. Cerca de um mês passou normalmente, até a próxima ligação de Kelly.
Na hora eu não estava atendendo, estava em uma pequena pausa. Anne, uma das operadoras voluntárias veio até mim dizendo que havia uma chamada urgente, a pessoa se recusava a falar com qualquer um além de mim.
Uma pessoa chamada Kelly.
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Eu: "Kelly? Sou eu, Robbie, algo errado?"

Houve um som fraco e abafado que soava como um grito.

Kelly: "M-minha amiga! Ela está ameaçando pular! Eu... -SOLUÇOS;Eu não sei o que fazer!"
Fiquei surpresa por um momento. Levei um tempo para processar completamente o que estava acontecendo. Tentei não perder a cabeça. Não podia e não permitiria que Kelly perdesse sua melhor amiga.

Eu: "Kelly, Kelly! Por favor tente se acalmar, respire fundo. Nós temos que manter a cabeça clara para ajudar sua amiga, ok?"

Kelly: "Sim -RESPIRAÇÕES; Eu já liguei para a polícia, eles estão a caminho... Eu sinto muito, eu apenas preciso de alguém. Qualquer um. Eles me disseram para contê-la e evitar que ela pulasse... Mas, e-eu..."

Eu: "Está ótimo. Estou aqui por você, ok?"

Houve um momento de silêncio a mais gritos abafados.

Kely: "... Sinto muito, sinto muito! -SOLUÇOS"

Eu: "Kelly? Ainda está aí?"

Não houve resposta. O único som era o barulho alto do vento.

Kelly: "NÃO! BRI! POR FAVOR! NÃO VÁ!"

Eu: "Kelly?!"

Kelly: "ME DESCULPE! ME DESCULPE POR NÃO ESTAR LÁ! BRI! EU IMPLORO! Não... me deixe!"

Kelly estava gritando com todo o seu fôlego. Só conseguia ouvir seu choro e sua voz vacilante. Abri a boca pra dizer algo, qualquer coisa, mas nada saiu. Tudo o que eu podia fazer era sentar lá e ouvir, com os olhos cheios de lágrimas.

Desconhecido: "Senhora!"

A chamada caiu abruptamente. A última coisa que ouvi foi o que eu esperava que fosse um policial ou alguém que foi alertado sobre a situação. Caí em lágrimas assim que recuperei meus sentidos e o entorpecer palpitante do meu peito foi substituído por um forte sentimento de culpa e tristeza. Me senti tonta e mal, então tirei o dia de folga. Os outros operadores foram muito compreensíveis com minha saída mais antecipada.

Pelo resto do dia eu dei o meu melhor para me acalmar. Dizia a mim mesma que eu não poderia ter feito nada, que eu fiz o que pude.

O dia seguinte não foi melhor. Foi um milagre eu ter acordado de manhã. Meus olhos estavam inchados, meu travesseiro estava molhado pelas lágrimas e meu cabelo parecia um ninho de passarinho. A pequena esperança de que Kelly e sua amiga tinham conseguido sair dali com vida me deram forças para voltar a trabalhar naquela manhã exaustiva.

Passaram-se algumas semanas mas o incidente ainda permanecia fresco em minha mente. Eu consegui aceitar o que aconteceu e, embora me doa ter que pensar nisso, aquela experiência me fez trabalhar mais duro. As feridas daquele dia estavam começando a se fechar, e embora eu tinha aceitado completamente que nunca saberia se a amiga de Kelly ficou bem ou não, eu descobri de qualquer maneira.

Não, eu não fui investigar. Kelly nunca mencionou onde morava, então já estava fora de questão. Em vez disto, eu encontrei Kelly por acaso em um café.

Eu tinha acabado de pedir um latte com baunilha, quando uma garota jovem caminhou até mim.
Ela tinha longos cabelos ondulados e castanhos claros, puxado para um alto rabo de cavalo e grandes olhos escuros que faziam parecer como se estivesse em constante choque, também tinha sardas em seu rosto. Ela parecia ter uns quinze anos. Não a reconheci.

"Com licença, seu nome é, por acaso, Robbie?"

Eu assenti, "Sim, eu sou Robbie. Perdão, mas... eu conheço você?"

"Sou eu, Kelly." Ela disse.

"Oh, meu deus!", eu exclamei. "Como está sua amiga? E-ela..."

Ela balançou a cabeça, "Bri? Ah, ela está bem agora... Eu não me lembro muito bem o que aconteceu. O policial que me ajudou disse que eu desmaiei e que..." Ela parou por um segundo, como se estive lembrando de alguma coisa. Mas antes que eu pudesse perguntar algo, ela voltou ao normal rapidamente.

"De qualquer forma, graças a deus! Eu pensei reconhecer sua voz, mas estava com medo que fosse a pessoa errada ou fosse a Robbie errada. Está aqui com alguém?"
Balancei a cabeça, "Não, apenas bebendo algo. Tenho planos para hoje. E você?"
Ela assentiu e apontou para a parte de trás do café com uma pequena mesa para dois, "Na verdade estou aqui com a Bri, ela está muito melhor. Seus pais a estão levando para a terapia. Irei apresentá-la a você!"

Eu sorri, "Claro."

Ela me levou até a pequena mesa para dois e caminhou até uma das cadeiras vazias.

"Brianna, essa é a Robbie, a mulher que me ajudou. Robbie, essa é Brianna Rose, minha melhor amiga."

Permaneci ali, chocada. Ela estava falando com uma cadeira vazia. Uma cadeira vazia.
Brianna Rose...

Onde eu já ouvi isso?

DESCANSE EM PAZ, BRIANNA ROSE 17/09/12

A imagem de um memorial de uma garota que havia cometido suicídio passou pela minha mente. Eu passava por lá de vez em quando.

O que mais me horrorizou foi que Brianna Rose morreu dois meses antes da primeira ligação de Kelly.

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